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MAGIA PRÁTICA, MUITO
PRÁTICA
comentário ao conteúdo de O Livro da Bruxa
de A. Santander
No livro de A. Santander as receitas
mágicas, feitiços, oráculos, começam no capítulo III com uma técnica
muito útil, atemporal! que pode funcionar em qualquer época, para as
mulheres se livrarem dos homens quando estiverem aborrecidas de os
aturar. A seguir, uma receita infalível para as mulheres não terem
filhos, tão útil quanto anterior ou mais, método bastante tradicional,
utilizando esponjas do mar introduzidas na vagina antes do coito, truque já
usado no Egito Antigo, por exemplo. Há magias para sedução, rejeição e
fidelidade, para prosperar no trabalho honesto ou desonesto. Oferece proteção
contra inimigos, oráculos para saber do presente e do futuro, feitiços e
contra-feitiços.
O capítulo IV resgata a figura do
mago egípcio Janes [que, juntamente com seu parceiro, Jambres],
que confrontou Moisés e Arão diante do Faraó com uma disputa de poderes mágicos.
Este personagem, o mago egípcio Janes, pouco lembrado nos dias correntes, também
é citado nos Livros de são Cipriano, fortalecendo as alusões a uma ligação,
mestra-discípulo entre o Santo Bruxo e a Bruxa de Évora. Em uma das versões da
fim da vida da Bruxa, ela é convertida ao cristianismo por Cipriano e termina
sua vida como devota católica e aia [camareira pessoal] de uma
aristocrata.
Neste capitulo,continuam sendo listadas
magias relacionadas com questões mundanas,cotidianas,incluem ainda, receitas de
beleza: Para conservar a formosura, para afinar, limpar e clarear a pele, tingir
os cabelos. Em uma das formulas o mago Jambres promete: ...Fazer sumir do
corpo e do rosto as verrugas, manchas e outras excrescências da
pele.
O capitulo V é dedicado à
Pastoromancia, denominação imprópria, refere-se à chamada, por ocultistas
como Eliphas Levi [Alphonse Louis Constant, 1810-1875] e Papus [Gérard Anaclet
Vincent Encausse, 1865-1916], magia dos campos, da tradição dos pastores
da Sicilia, Itália. E não são propriamente magias.
São receitas, mais especificamente,
medicinais, parte do arsenal curativo popular dos precários tempos
medievais. São remédios e rezas para combater, solitária [Taenia
solium, verme platelminto], hemorróidas, lesões musculares, surdez, dor de
dentes, feridas, úlceras, hemorragias, queimaduras, picada de insetos e animais
peçonhentos e, é claro, receita contra calos e verrugas.
O CAPITULO VI promete revelar o
segredo alquímico da arte de fazer ouro. Porém, como sempre acontece nesse tipo
de "literatura" o texto nada fornece de aproveitável sobre o tema. Aliás, passa
longe de qualquer fórmula de produzir ouro.
São mencionadas umas poucas substâncias
muito usadas em outras operações mágicas registradas em outros manuais do
gênero. Tais substancias seriam ingredientes-chave da transmutação de materiais
ordinários no precioso metal. Escreve Santander: Não faltam nos livros
verídicos [?] exemplos que comprovem essa operação. E
ainda: Esta arte é de grande facilidade [!] mas exposta a
graves perigos porque não se pode executar em a cooperação do demônio
(SANTANDER, p 59).
É o demônio quem prepara e fornece
certos pós empregados na transmutação. Dois metais e uma outra substância
são mencionados como ingredientes essenciais: argenteo vivo
[possivelmente interpretável como Alumínio (Al) mas muito mais provável que
seja redundância esclarecendo o azougue como sendo e elemento Mercúrio
cujo símbolo é Hg provém da designação latina – hydrargyrum que significa
prata líquida.
De fato, o Mercúrio assemelha-se a uma
prata buliçosa e vívida [por sua consistência entre o fluido e o gel]; daí
também a denominação azougue [para o mercúrio], aludindo a algo
buliçoso, que não para quieto. Finalmente, entre os ingredientes da transmutação
comentada em O Livro da Bruxa é mencionado um misterioso pó de Resh
[Veja box ao lado].
CAPÍTULO VII –
TESOUROS DA GALIZA
Galiza ou Galícia é uma comunidade
autônoma espanhola, fronteira com Portugal, situada a noroeste da Península
Ibérica. Sua capital é Santiago de Compostela, na província da Corunha. As
informações sobre estes tesouros foram alegadamente extraídas de um pergaminho
que teria sido encontrado nas ruínas do castelo mourisco de Altamira [abaixo] no
ano de 1065.
Sobre o paradeiro do pergaminho (no século
XX) diz o autor (Santander) que encontra-se [ou encontrava-se...] em Barcelos,
[cidade portuguesa, norte do país], na Biblioteca Acadêmica Peninsular Catalã.
Muito danificado, o pergaminho tem partes
carcomidas e em alguns casos não se entende bem (SANTANDER, p 63]. Na verdade, todo o texto sobre os supostos Tesouros da Galiza não
se entende nada bem, por exigüidade de informações e/ou por arcaísmos nas
denominações topográficas, medidas de distância e valores.
Os termos usados nos textos dos 173 (cento
e setenta três) segredos estão repletos de termos muito antigos. Exemplos:
Encruzilhada de Lobios, distância de 32 homens... depositamos 500 cunhos, na
ponte do Poderoso, à profundeza de dois homens... [na]...
residência de frei Tramudo... um haver de prata em rama... entre dois troncos de
pinheiro, etc.
Deste modo, as dezenas de segredos que
deveriam revelar ou fornecer chaves de localização de tesouros, parecem nada
significar; de nada servir aos caçadores das arcas e das botijas
perdidas.
Todavia, se um crédulo ou teimoso arriscar
apostar em algumas das 173 dicas vai precisar estudar exaustivamente para
decifrar/traduzir os nomes de localidades, que mudaram muitas vezes, identificar
personagens históricos, descobrir e converter para termos atuais valores das
distâncias e das supostas riquezas.
CAPÍTULO VIII – ORÁCULO DOS SEGREDOS
REVELADOS PELA FEITICEIRA DE ÉVORA
São 108 estes segredos que o autor
(Santander) classifica como maravilhosos. Porém o capítulo, na realidade apenas
reúne mais receitas, cujo teor oscila entre a superstição e o curandeirismo mais
popular.
Pretender fornece fórmulas para uma
miríade de problemas da condição humana: desde a prática de proezas
sobrenaturais, remédios caseiros para questões domésticas mais ou menos
ordinárias ou, ainda artifícios para alcançar desejos pouco louváveis e,
certamente, nada cristãos.
Em termos gerais trata da saúde e higiene
básicas, das virtudes de certas substâncias e de outras coisas, dos truques
mágicos para obter vantagens, das operações consideradas sobrenaturais, como a
levitação. São outros exemplos desses segredos textos que tratam de assuntos
como:
Em saúde e higiene – Cura de dores
de cabeça, evitar pulgas, carrapatos, percevejos, piolhos, formigas, moscas; são
remédios par lombrigas, tosse, catarro. diarréia, desinteira; para evitar a
sarna, para conhecer enfermidades pelo exame da urina, para manter a castidade,
para cobrir os cabelos brancos. Para manter a castidade...
Sobre virtudes de substâncias e de
certas coisas – Do vinagre, da urina, do ovo, da Genebra, da
Artemísia, do Jacinto, do sono, de peles descartadas na muda das cobras. Para
conhecer as enfermidades pelo exame da urina. Sobre as virtudes do
sono.
Prodígios – Tirar o sal da água do
mar. Separar água e vinho. Para que um cavalo pareça manco não sendo. Para não
sentir tédio nem cansaço em uma jornada. Para o fogo não queimar. Descobrir
infidelidades. Fabricar uma lâmpada invisível.
CAPÍTULO IX – Frenologia, Antropometria
& Fisiognomia
Phrenologie, 1894. Friedrich Eduard Bilz
(1842-1922)
com imagens ao invés de legendas no cérebro.
Trata-se de conhecer os indivíduos pelo
estudo ou leitura do Crânio [fenologia], das Proporções e aspectos
das partes do Corpo [antropometria] e dos traços do rosto [fisiognomia].
Capítulo bastante curioso que, muito provavelmente, mistura sabedoria popular
com idéias científicas que tornaram-se populares.
Além disso, esse tipo de conhecimento é
matéria essencial para qualquer magista e/ou ocultista, uma tema especial entre
todos os tópicos dos estudos das Ciências Humanas [no ocultismo].
Embora estas ciências tenham origens muito
antigas, o texto de Santander em O Livro da Bruxa é fundamentado nos
estudos do médico alemão Franz Joseph Gall (1758-1828, que mapeou crânio
e cérebro segundo suas supostas funções):
Gall, o notável médico e
fisionomista... é o autor deste engenhoso sistema, que ensina a descobrir, por
claríssimo modo, as inclinações, vícios, paixões e virtudes de todas as pessoas
pelo simples exame e configuração do crânio. ...Não se pode por em dúvida a
lógica desse sistema. ... Os homens mais notáveis, tanto por seus talentos como
por seus crimes, raras vezes apresentam cabeças regulares [SANTANDER].
Santander fornece a lista das faculdades
cerebrais, que são trinta associadas a trinta regiões crânio-cérebro, mas não
apresenta o mapa concebido por F. J. Gall. A seguir passa a tratar da
fisiognomia, estudo dos traços e formas do rosto fornecendo algumas dicas sobre
a leitura dessas características: formato, tamanho dos olhos, nariz, testa,
boca, dentes, queixo, orelhas, mãos, pés.
Também fala dos tipos físicos como um
todo, considerando altura, compleição, postura. Porém, o estudo apresentado por
Santander muito superficial se comparado a outros publicados por ocultistas mais
eruditos, como Papus [Gerard Anaclet Vincent Encausse, 1865-1916].
CAPÍTULO X – CARTOMANCIA
Neste penúltimo capítulo, mais uma vez,
misterioso manuscrito revelaria a técnica da suposta Bruxa de Évora no ofício
oracular de ler o destino das pessoas nas cartas de um baralho comum.
Na misérrima choça que abrigava a
bruxa, sua última morada antes da condenação e num falso compartimento que lhe
servia de dormitório, foi achado um manuscrito esta nova arte de deitar as
cartas, a que demos o nome de cartomancia cruzada e, ao que parece,
[desta técnica] a feiticeira começou a fazer uso depois de ter-se
indisposto com Satanás [supostamente, a Bruxa converteu-se ao
Cristianismo por influência do também ex-feiticeiro Cipriano – [p
139].
Observação: Na cartomancia, as
cartas podem deitadas [tiradas e postas na superfície de um plano]
em disposição linear, uma ao lado da outra, é muito comum. A forma cruzada
dispõe as cartas de modo a formarem a figura de uma cruz, com uma tiragem de
cinco cartas, por exemplo. Isso isentaria a prática de tirar a sorte do estigma
do pecado que consiste, justamente, em fazer uso de oráculos.
Meditemos...
CAPÍTULO XI –
SOBRE
ASSOMBRAÇÕES
Finalizando o Livro, Santander
apresenta uma pequena coleção de casos de assombrações, sem faltar a célebre
casa assombrada de Atenas e referências a personagens do folclore histórico,
especialmente da península Ibérica, como: o Frade da Mão Furada e a Velha nos
telhados das casas. Crenças que chegaram ao Brasil colônia como atestam
pesquisas de estudiosos do assunto.
LINK RELACIONADO: Cipriano, O Santo Feiticeiro
FONTES:
Alarcão, Jorge de. Populi, Castella e
Gentilitates. Revista de Guimarães. Volume Especial I. Guimarães: 1999. Casa de
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Google Books.
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IN Infonet.
[http://www.infonet.com.br/luisantoniobarreto/ler.asp?id=41760&titulo=Luis_Antonio_Barreto
– acessado em 17/09/2010]
BERNAND, Carmen Muñoz. Enfermedad, Daño e
Ideologia: Antropología médica de los Renascientes de Pindilig. QUITO-Ecuador:
Edicones Abya-Yala, 1999. Google Books.
DICIONÁRIO DE MITOLOGIA GRECO-ROMANA. São
Paulo: Abril Cultural, 1973.
FARELLI, Maria Helena. A bruxa de
Évora. 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Pallas, 2006.
La
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manuscrito de Amador Patricio, datada em Salvaterra – 23 de Abril de 1614. IN Gran Libro de San Cipriano o los
tesoros del hechicero. Ediciones AKAL, 1985. Google Books.
LEVI, Eliphas. Dogma e ritual da alta
magia. [Trad. Rosabis Camayasar]. São Paulo: Pensamento, 1993.
MANDELBAUM, Benjamin. A Letra Resh. IN
[http://www.cjb.org.br/bina/cabala/benjamin/Letras%20e%20Numeros/A%20letra%20Resh.pdf]
acessado em 04/11/2010.
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História da Civilização Ocidental, vol. I. [trad. Lourival Gomes Machado et.
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SANTANDER, Amadeo de. O livro da bruxa ou A
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São Cipriano, o Bruxo. Capa de Aço. Coletânea,
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SARAMAGO, José. Évora, Património da
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[http://www.dougsinclairsarchives.com/mandelbaum.pdf]
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SKALINSKY JUNIOR, Oriomar. O caminho dos
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Universidade Estadual de Maringá, 2007.
[http://www.ppe.uem.br/dissertacoes/2007%20-%20Oriomar_Skalinski_Junior.pdf
Acessado em 17/09/2010]
[http://www.scribd.com/doc/13621641/En-Torno-Al-Origen-de-La-Mama-Huaca]
[http://www.unioviedo.es/CEHC/pdf/Tesis%20Vanesa/conjuntotesis.pdf]
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ALQUIMIA, SIMBOLOGIA &
O MISTERIOSO PÓ DE
RESH
Entre os segredos mais tradicionais da
Alquimia, a receita da transmutação de metais ordinários em ouro é um
conhecimento mítico. Muitos manuais, Grimórios atribuídos a antigos
ocultistas prometem revelar a fórmula.
Isso jamais aconteceu ou, se aconteceu,
quem o fez transcreveu a fórmula para uma linguagem tão velada em simbolismos
que jamais foi compreendida.
PEDRA FILOSOFAL –
Todavia, os numerosos textos que rodeiam essa fórmula
mágica concordam sempre em uma coisa: para realizar a transmutação do metal e,
também, para produzir o Elixir da Vida Eterna, é necessário um
ingrediente ainda mais enigmático: a Pedra Filosofal.
Mas, especificamente no que se refere ao poder de
fazer ouro, os textos envoltos em máscaras sempre mencionam entre os
ingredientes da operação: o Mercúrio, o Enxofre e o Sal. Sobre esse assunto,
escreve o ocultista Eliphas Levi (1993):
Tudo que é matéria contém sal e todo o sal pode
ser mudado em ouro puro pela ação combinada do Enxofre e do Mercúrio. E
ainda:
Sim, podemos real e materialmente fazer ouro com a
pedra dos sábios, que é um amálgama de Sal [Cloreto de Sódio], Enxofre e
Mercúrio combinados três vezes em Azoth por uma tríplice sublimação [passagem do estado sólido para gasoso sem passar por estado
líquido] e uma tríplice fixação (LEVI, 1993 – p 211)
Porém, pergunta-se: o quê é Azoth? É um
mistério muito parecido com o Pó de Resh, citado no Livro da
Bruxa e dificilmente o termo se refere a algum elemento químico ou
substância molecular.
ר
Resh é a vigésima letra do
alfabeto hebraico e, portanto, é um símbolo cabalístico, tem vários
significados. Também é a vigésima letra em outros alfabetos semitas: fenício,
aramaico, siríaco, arábico.
Em latim corresponde ao R. O pictograma [acima]
representa uma cabeça porém RESH é uma idéia mais ampla, associada a muitas
outras coisas.
Seu valor numérico é 200. Escreve Benjamin Mandelbaum
[1825-1854]: Resh... literalmente quer dizer cabeça, mas também
começo.
Como atributo do mago, o Resh pode ser entendido como
a capacidade de dominar o amor e o ódio.
Eliphas Levi alimenta do mistério do simbolismo
alquímico relacionando Cabala e Tarot (e seus numerosos signos), Neste sentido,
Resh ou Resch é Temperança, arcano maior carta XIV (14) –
mais uma vez, dominar o amor e ódio, possuir o controle da misericórdia e o
rigor mas , sobretudo possuir o Controle. (LEVI, 1993 p
58].
Mais adiante, LEVI (Idem, p
142/143) escrevendo sobre a carta 20 do oráculo Tarot
[décima parte de 200...], O Julgamento, associa à letra
cabalística [que é a vigésima] a um atributo específico. E sobre Resh, diz:
seu sopro faz germinar os pós do
túmulos (LEVI, 1993 p 143].
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